preludio
tudo é sonho / improviso impermutável e a impossibilidade de ser
A crueza dos dias me escapa pelos dedos como a areia clara da praia.
Até aqui sinto já ter morrido algumas vezes e mesmo assim a vida seguiu seu curso, sem respiros, sem divisar a pedra que a todos causou tropeços. Em frente é a palavra de ordem. Mas não há pressa, o fim é a única certeza, então não há pressa.
Tateio errante o improviso dos dias, improviso sem barganha, impermutável, tudo ocorre com alguns transtornos mas a mim só cabe seguir.
Elucidei parte do mistério, vislumbrando que tudo é sonho. A cortina de camurça vermelha se abriu nesse palco de sonho onde tudo é possível.
—MANUELA NAVAS

“Tudo é sonho / improviso impermutável e a impossibilidade de ser”
Com curadoria de Carolina Rodrigues e direção artística de Carla Oliveira, a artista Manuela Navas apresenta a sua exposição “Tudo é sonho / improviso impermutável e a impossibilidade de ser”, no Centro Cultural Correios Rio de Janeiro até 22 de março de 2025.
A exposição reúne duas séries, Black to the Future e A Impossibilidade de Ser, desvelando a trajetória de pesquisas recentes da artista, onde pintura e desenho se tornam territórios para fabulações visuais sobre identidade, memória e permanência.
As obras são marcadas por recortes de cenas cuidadosamente elaboradas, onde as cores falam tanto quanto as formas. Símbolos adinkras emergem como fragmentos de uma ancestralidade revisitada, enquanto o tempo, sempre suspenso, dissolve-se em miragens evocadas pelas memórias da artista.
Em cada obra, Navas confronta a gravidade de existir com a leveza do efêmero, criando paisagens internas onde o presente dialoga com aquilo que o antecede. Uma travessia poética sobre estar, imaginar e (re)fazer-se no mundo.

Leia na íntegra e com exclusividade o texto curatorial de Carolina Rodrigues:
Em Tudo é sonho / improviso impermutável e a impossibilidade de ser, individual da artista Manuela Navas, é traçado o encontro entre duas pesquisas que a acompanharam durante os últimos anos: Black to the Future e A impossibilidade de ser, que se desdobraram nas séries apresentadas.
Na série Black to the Future a artista parte da investigação sobre os registros fotográficos e audiovisuais dos acervos de sua família para realizar um processo de assemblage entre a objetividade das imagens, a elaboração das próprias memórias da infância e aquilo que sente ecoar em outros repertórios afetivos. Com enquadramentos espontâneos, elabora momentos de ternura, de conexão e fruição, evidenciando aquilo que antecede o clímax — o tempo da espera, das preparações, dos instantes em que a vida realmente acontece. Os festejos que se configuram como respiros em meio ao cotidiano, onde os corpos se movimentam e os olhares se encontram, se tornam momentos propícios para o emergir dos segredos. Dessa forma, cada pincelada adiciona uma camada de fabulação e de reconfiguração do passado a partir dos desejos de uma futuridade onde, sobretudo, as existências femininas possam se mover livres das repressões, tecendo e compartilhando os fios da memória.

Explorando uma dimensão mais introspectiva e silenciosa, a série A impossibilidade do ser, não desvia da dor, do desconforto e do sentimento de inadequação frente aos desafios impostos tanto pelos lugares ocupados socialmente quanto pelas questões existenciais intrínsecas à condição humana. Nesse conjunto, a objetividade da imagem é diluída e a artista apresenta sobreposições de camadas de movimentos, investe nas aproximações e em situações que expressam as incertezas e os emaranhados da vida, apostando na ausência de controle presente nos sonhos e nas quedas frequentemente experienciadas nos momentos de supressão da consciência.
Apesar de apontar para diferentes caminhos imagéticos, a confluência entre os conjuntos se faz no protagonismo do tempo, das camadas que coexistem nos referenciais com os quais a artistas dialoga para apresentar sua relação com o presente e com os espaços que percorre, elaborando sua percepção sobre si e sobre os personagens que figuram nos cenários de sua vida. Intimidade é uma palavra que ecoa quando nos deparamos com a variedade de composições pictóricas onde se estabelece uma relação de confiança com quem se coloca diante delas, apresentando uma auto-ficção que permite o acesso às maiores verdades de seu ser, transformando a vulnerabilidade em domínio sobre as próprias tramas.
Pela primeira vez, Manuela Navas integra o desenho, os traços e o inacabado às suas composições, assumindo que muito do que emerge nessas investigações se apresenta como estudo, como processo, integrando fluxos oníricos à figuração. Assim, abraça a complexidade da vida—essa que tantas vezes nos impõe improvisos e nos força a seguir sem margem para permutas. Partindo de lugares onde o direito ao sensível não está garantido, a artista reivindica caminhos pavimentados na possibilidade de sonhar.

Manuela Navas (1996, Jundiaí, SP) tem como fazer artístico fundamentado entre técnicas de pintura, fotografia e xilogravura, cujas temáticas principais são os corpos negros, o feminino e o maternar, seja em retratos ou cenas cotidianas, sendo os indivíduos afro diaspóricos, a existência como mulher e a reflexão nos entornos da maternidade, a base do seu trabalho, a partir de um olhar decolonial e afetivo.
A artista busca a reflexão sobre a realidade que rodeia o povo brasileiro, da qual a mesma faz parte, como um exercício de pensar a própria existência, pensando do material para o metafísico, permeando assim as singularidades dentre o viver coletivo como mãe negra.
Navas integra grandes coleções e participa/ou de exposições dentro e fora do território nacional, como sua exposição individual “O concreto que evapora (Bacorejo, RJ, 2022), e sua individual na Itália “Lembranças inventadas” (Monti8, Italia, 2022), além das exposições “Alguma versão do que aconteceu” (Casa Bicho, RJ, 2022), “Dos Brasis – Arte e pensamento negro” (Sesc Belenzinho, 2023), Funk: um grito de ousadia e liberdade (Museu de Arte do Rio, 2023), ELEMENTS (UUU Art Collective, NY, 2022), “Ah eu amo as mulheres brasileiras”(Centro Cultural de São Paulo, 2023), dentre outras exposições e feiras de arte. Em 2022, participou do festival de arte urbana NaLata, pintando uma empena no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Recentemente fez parte da ocupação IBORU, de Marcelo D2, nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador, teve suas obras como parte do cenário da turne Zeca Pagodinho, 40 Anos (2024), com suas obras fez parte da cenografia do Festival Aliança Global, realizado pelo G20 no Rio de Janeiro (2024) e tem uma pintura como bandeira do Museu de Arte do Rio (2024).

This exhibition brings together two series, Black to the Future and The Impossibility of Being, unveiling the artist’s recent explorations where painting and drawing become fertile grounds for visual narratives on identity, memory, and permanence.
Each work is crafted with meticulously composed scenes where colors speak as profoundly as forms. Adinkra symbols surface as fragments of a reimagined ancestry, while time—always suspended—dissolves into mirages drawn from the artist’s memories.
Navas navigates the tension between the gravity of existence and the ephemerality of fleeting moments. Her creations are internal landscapes where the present converses with the past, offering a poetic journey through being, imagining, and reimagining one’s place in the world.

Manuela Navas’s (Born in 1996, Jundiaí, SP, Brazil) artistic practice is grounded in techniques such as painting, photography, and woodcut. Her primary themes revolve around Black bodies, femininity, and motherhood, whether in portraits or everyday scenes. Her work centers on Afro-diasporic individuals, the experience of womanhood, and reflections on motherhood, viewed through a decolonial and affective lens.
The artist seeks to inspire contemplation about Brazilian realities, of which she is a part, as an exercise in understanding her own existence, moving from the material to the metaphysical and exploring the singularities within collective Black motherhood experiences.
Navas’s works are featured in major collections, and she has participated in exhibitions both nationally and internationally, including her solo show The Concrete that Evaporates (Bacorejo, RJ, 2022) and her individual exhibition in Italy Invented Memories (Monti8, Italy, 2022). Other notable exhibitions include Some Version of What Happened (Casa Bicho, RJ, 2022), Dos Brasis – Art and Black Thought (Sesc Belenzinho, 2023), Funk: A Cry of Boldness and Freedom (Museum of Art of Rio, 2023), ELEMENTS (UUU Art Collective, NY, 2022), and Ah, I Love Brazilian Women (Centro Cultural de São Paulo, 2023).
In 2022, she participated in the NaLata urban art festival, painting a large-scale mural in the Pinheiros neighborhood of São Paulo. Recently, she contributed to Marcelo D2’s IBORU project in Rio de Janeiro, São Paulo, and Salvador, and her works were featured in the set design of Zeca Pagodinho’s 40 Years tour (2024). Her work was also part of the scenography for the Global Alliance Festival, organized by the G20 in Rio de Janeiro (2024), and one of her paintings is currently featured as a banner at the Museum of Art of Rio (2024).

Carolina Rodrigues é historiadora da arte (EBA/UFRJ) e mestre em Artes Visuais, linha de Imagem e Cultura, pelo PPGAV/UFRJ e pesquisadora integrante do Núcleo de Antropologia, Patrimônio e Artes/CNPq. Atualmente, é curadora geral do Museu Bispo do Rosario e articula questões relacionadas às fronteiras do sistema da arte, relações étnico-raciais, territorialidade e gênero a partir da Zona Oeste do Rio de Janeiro. Recentemente, contribuiu com o desenvolvimento da concepção curatorial do Museu do Comércio do Sesc RJ enquanto curadora adjunta e pesquisadora, desenvolveu projetos na Gerência de Cultura e Arte Firjan SESI e realizou mentoria curatorial no programa de residência Territórios Curatoriais, no MAM Rio.